Valor Econômico destaca crescimento do mercado de pescado no Brasil

A reportagem, que revela o avanço da aquicultura nacional, foi publicada na edição desta sexta-feira (5), no Caderno B16/Agronegócios. Confirma abaixo as informações da publicação.

Importação cobre alta do consumo de pescados

Por Luiz Henrique Mendes e Tarso Veloso | De São Paulo e Brasília

Apesar da extensa costa marítima, a pesca extrativa perde espaço no Brasil: o país não tem peixes em grandes quantidades e já atingiu o limite de captura de espécies selvagens por causa do avanço indiscriminado da pesca predatória

Ao contrário do que acontece na maior parte do mundo, o pescado nunca desfrutou de grande prestígio entre os brasileiros. Mas a situação começou a mudar nos últimos anos, com um expressivo salto do consumo per capita no país. Mas, ainda que o Brasil seja dono de um dos maiores potenciais de produção de pescados em cativeiro – já que a pesca extrativa não é o forte do país -, foram as importações de peixes a preços mais acessíveis, sobretudo da China, que ajudaram a turbinar e abastecer a demanda nacional.

As importações de pescados contribuíram com 323 mil toneladas entre 2005 e 2010, ou 50% do crescimento da demanda brasileira no período. Com isso, a participação das compras externas no consumo nacional passou de 25,9% para 34,2%, conforme o Ministério da pesca.

pescados

Em declínio a partir da década 90, o consumo de pescados esbarrava em três obstáculos principais: preços elevados, falta de hábito e produção nacional acanhada. Por causa disso, a presença do peixe no mesa do brasileiro ficava restrito, principalmente, à região Norte, às festas de fim de ano e à Quaresma. Até então, mesmo os pescados voltados às classes mais abastadas, como o camarão produzido no Nordeste, encontravam mais mercados no exterior.

Impulsionado pelo crescimento da renda da população brasileira, o cenário começou a mudar em 2005. O consumo nacional per capita anual passou de 6,66 quilos, naquele ano, para 9,75 quilos em 2010, último dado disponibilizado pelo Ministério da pesca. O movimento, afirmam especialistas, prosseguiu no último ano.

Mas o avanço do consumo não aconteceria sem as importações da China e também do Vietnã. “Porque o consumidor não comia peixe? Porque ele não tinha hábito e sempre foi muito caro. E se você não tem hábito, não vai começar pelo peixe mais caro”, afirma Ivan Lasaro, presidente Andip, entidade que representa os importadores de pescados.

Foi nesse contexto que entraram os peixes asiáticos. “Eles ofereceram peixe com disponibilidade e preço baixo. Conclusão: o consumo explodiu”, diz Lasaro. Irrelevante para o Brasil até 2007, a China, maior produtor mundial de pescados, aproveitou o melhor ambiente econômico do país e inundou o mercado brasileiro com a chamada merluza-do-alasca, pescada no mar de Bering, extremo norte do Pacífico.

O movimento foi tão intenso que, no ano passado, a China desbancou o Chile e seu tradicional salmão do primeiro lugar nas exportações de pescados para o Brasil, em volume. Entre 2007 e 2011, os embarques chineses para o país passaram de 3 mil para 79,7 mil toneladas, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). No ano passado, o Chile vendeu 47 mil toneladas de pescados para o Brasil. A China ainda perde para o Chile em receitas, mas a distância vêm diminuindo. Em 2011, o Brasil gastou US$ 231 milhões com as importações da China e US$ 282,3 milhões com as do país sul-americano.

Outro país que se beneficiou do avanço do mercado brasileiro foi o Vietnã. Concentrado nas exportações de pangasius, o país asiático viu seus embarques para o Brasil saltarem de inexpressivas 225 toneladas em 2007 para 29,5 mil em 2011.

Por ser produzido em cativeiro no delta no rio Mekong, um dos mais poluídos do mundo, o pangasius, também conhecido como “peixe-gato” (“cat fish”) é sistematicamente questionado por questões sanitárias. “Se controlar a sanidade, eu não vejo com maus olhos. Ele pelo menos viabiliza o consumo de quem não pode comprar um peixe mais caro”, diz Tito Livio Capobianco, presidente Associação Brasileira da Indústria de Processamento de Tilápia (AB Tilápia).

Os exportadores de pescados não foram os únicos a comemorar o salto do consumo no país. Na esteira dos peixes asiáticos mais baratos, a produção nacional de pescados em cativeiro, a chamada aquicultura, avançou 86,3% de 2005 a 2010, para 479 mil toneladas. Com isso, passou a representar 37,8% da produção brasileira, em detrimento de pesca extrativa, segundo dados do Ministério da pesca. Em 2005, a fatia dos pescados de cativeiro foi de 25,5%.

A produção aquícola brasileira está concentrada em quatro peixes: tilápia, carpa, camarão e tambaqui. Juntos, esses quatro pescados representaram 373,6 mil toneladas, ou 78% da produção da aquicultura nacional em 2010.

Pedro Furlan, da Nativ pescados: país tem vocação natural para a aquicultura

“Com 13% de toda água doce do mundo e grãos para a produção de ração, o Brasil tem uma vocação natural para a aquacultura”, acredita Pedro Furlan, presidente da Nativ pescados. Furlan é bisneto de Attílio Fontana, fundador da Sadia. Com sede em Sorriso (MT), a Nativ abate cerca de 6 mil toneladas de pescados por ano, entre tilápias e peixes amazônicos. No ano passado, a companhia faturou R$ 30 milhões.

Essa vocação é expressa em números pela FAO, o braço da ONU para agricultura e alimentação (FAO). Segundo a instituição, o Brasil tem condições de produzir, de maneira sustentável, 20 milhões de toneladas de pescados por ano.

A tilápia, batizada de “Saint Peter” como estratégia de marketing, é a grande aposta para que o Brasil ocupe um lugar de destaque na aquicultura mundial – hoje, o país é o 17º na lista dos maiores produtores. Empresas como a cearense Nutrimar, forte na produção camarão, planejam entrar no mercado de tilápias.

Mas atingir esse potencial demandará investimentos, como na produção em escala. “Nossa produção hoje não é competitiva para exportar”, lembra Furlan. No Grupo Pão de Açúcar o salmão chileno é até mais barato que a tilápia produzida no Brasil, conta Manoel Antonio Filho, gerente comercial de peixaria da rede.

A competitividade do setor entrou no radar do BNDES, que tem planos de consolidar o segmento, à exemplo do que fez na área de frigoríficos de carne bovina. Enquanto isso não acontece, o Brasil mantém barreiras comerciais nas importações de camarão e tilápia para manter a competitividade.

Se a aquicultura anima por seu potencial, o mesmo não acontece com a pesca extrativa. Apesar da extensa costa marítima, o Brasil não possui peixes em quantidade e já atingiu o limite de captura de peixes selvagens, por conta da pesca predatória (ver abaixo). 

Segmento terá um novo plano de safra

Por De Brasília

O Ministério da Pesca está finalizando os ajustes do Plano Safra da pesca e Aquicultura, que deve ser lançado ainda neste mês pela presidente Dilma. A proposta de um plano específico para o segmento não é uma novidade, mas, segundo fontes da Pasta, este será o mais completo de todos.

O governo estuda atuar em diversas frentes para fomentar a produção de pesca dos no país, mas não pretende usar dinheiro novo. O pacote deve utilizar parte dos R$ 137 bilhões disponibilizados para a agropecuária a fim de ampliar o crédito com juros baixos, já concedido para os agricultores. Por enquanto, ficou decidido que não deverão ser criadas novas linhas de crédito. Fontes do governo creem que basta fomentar as opções existentes.

Além de crédito, o plano visa aumentar os prazos de carência e pagamento, além de qualificar os critérios para obtenção de crédito, desonerar a cadeia produtiva, garantir assistência técnica e extensão pesqueira e aquícola, ampliar a capacidade de compras institucionais para apoiar o pescador artesanal e o aquicultor familiar, fortalecer o cooperativismo,disponibilizar infraestrutura e equipamentos, modernizar e renovar embarcações e investir em ciência, tecnologia e inovação.

O governo quer reforçar a qualificação dos pescadores e criadores por meio de assistência técnica para que o segmento comece a abandonar o “amadorismo”. “A produção está abaixo do potencial por falta de planejamento, e não de dinheiro”, disse uma fonte envolvida na confecção do plano. (TV)

‘Bolsa pescador’ é alvo de investigações

Por De Brasília

Elogiada quando foi criada, em dezembro de 1991, a Lei 8.287, que estabeleceu o seguro-defeso, passou a ser alvo de recorrentes suspeitas de fraudes nos últimos anos. Também conhecida como “bolsa pescador” e fiscalizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a lei tem por objetivo garantir renda aos pescadores na época de reprodução das espécies, quando os trabalhos têm de ser suspensos.

De 2003 a 2011, o número de beneficiados pela “bolsa pescador” cresceu 414,8%, de 114,07 mil para 587,23 mil. Esse crescimento fez com que os desembolsos registrassem aumento de 1.372% no período. Em 2003, o dispêndio do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para pagamento do benefício foi de R$ 84,3 milhões. No ano passado, o valor chegou a R$ 1,24 bilhão.

A tendência é que o gasto continue se expandindo e feche 2012 por volta de R$ 1,6 bilhão. Esse montante, se concretizado, será cinco vezes maior que o orçamento deste ano do Ministério da Pesca, de R$ 324 milhões.

Normalmente, o benefício é pago por quatro meses. Aos pescadores, basta comprovar o exercício profissional da pesca e a ausência de outro emprego, bem como qualquer outra fonte de renda.

A partir das inúmeras denúncias que surgiram sobre a destinação e o mau uso desses recurso, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal abriram investigações para apurar se de fato existem ou não esquemas de pagamento indevido. (TV)

Fonte: http://www.mpa.gov.br